o meu não-amor

amiasterisco photography
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troquei uma relação definida, com nome e sobrenome, sogro e sogra, cunhado e cunhada por uma sem nada. sem brasão de família. sem rótulo colorido de gelatina. sem contrato assinado em duas vias. sem status no facebook. sem tapinha nas costas do chefe em festa de final de ano da empresa. sem jantar à luz de velas. optei pelo abraço mais apertado. pelo beijo bem dado. pelo aperto de mão sem horário. pelas risadas de madrugada. pela companhia no hot dog da carrocinha da esquina de cima. pelo cigarro dividido. pelo texto colado. pela instabilidade que é corresponder o que não se sabe ao certo do que se trata. pela sensação que é estar apaixonado.

isso porque sentimento não se explica. nem deve ser teoria aplicada. ele existe e está aqui. latente. latejante. franco. sabemos que abri mão da ilusão. a gente vai ficando velho e aí encara as coisas meio que de supetão mesmo. dá a cara a tapa. e simplesmente não se importa com muita coisa, não. só com o que realmente interessa. só com o que verdadeiramente vale algo na nossa rotina. porque só eu sei o que passo das 6h30 às 23h30 de uma segunda-feira. de uma terça. de uma quarta inteirona.

foi assim que, de uma maneira bem estranha, a falta de definição me levou a incluir seu nome no meio da bagunça que é a minha cabeça. você anda ocupando a cadeira da primeira fileira e isso é algo bem perturbador. gente que muda nossos móveis de lugar assustam mesmo, afinal, só os incríveis carregam cadeiras de madeira pesada e ficam por ali, full time.

o meu mundo é às avessas. ele sempre foi. o sorvete de limão azedo sempre foi mais gostoso na minha boca. o amigo verdadeiro sempre foi o que estava mais distante em quilometragem. o meu irmão sempre foi a pessoas mais chata comigo – mas a que ensinou tudo de mais extraordinário que eu conheço na vida. os meninos menos populares soavam mais interessantes. meu caderno não tinha a capa da banda eleita a melhor do ano pela capricho. minhas músicas nunca são as do ano da vez. minhas unhas nunca se importam com os esmaltes que virão. eu optei por uma vida de havaianashavaianas trocadas por saltos na hora certa.

então só faltava isso: ter um amor que não tem cara de amor. não tem nome de amor. não se diz amor. nem se parece com o amor almofadinha que tive a vida inteira. mas ele é um amor. e daqueles bem possantes, tipo carro do ano. que faz a minha mente percorrer por lugares distantes em segundos. que faz tudo de errado virar certo e faz tudo de certo virar errado e eu me perco e me acho e aí encontro e desencontro. tudo de novo. já sabemos que virou amor porque, vamos lá, é só calcular. faço a equação do número de vezes que penso na pessoa. que fico fula com a pessoa. que me sinto otária. que me sinto invencível. que a minha barriga congela. que me vejo sorrindo sem jeito no meio da avenida do contorno. vivo uma briga interna gigante que parece não ter rumo nem fim.

eu poderia aceitar essa confusão toda. contar por aí que eu não sei do que se trata mas que tá acontecendo. tem alguma coisa diferente aqui, sim. que eu canse de levar o drama para o amor. que eu pare de decodificar o amor. já que legal mesmo é perceber que esse alguém-herói é quem me liga quando chove, por saber que eu fico mal-humorada na janela em dia cinza. é quem divide seu chocolate preferido comigo e ainda oferece mais de uma mordida. é quem conta as histórias mais indecorosas por pura confiança. é quem vai à pé até onde der só para me encontrar e em qualquer lugar que seja. tudo isso só porque ficar de bobeira, lado a lado, é muito melhor do que qualquer multidão lá fora. do que qualquer possibilidade. do que qualquer novidade. nós somos a novidade. nós cantamos músicas ruins só para fazer o outro rir. nós somos nós quando estamos juntos. e tem vezes que quando separados também. isso tudo é só porque, no final das contas, a gente só quer mesmo uma coisa: se divertir. e viver um não-amor que conseguiu transformar tudo por aqui.

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♪ para ouvir lendo ● easy – faith no more

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