prazo de validade

tara denny

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estava sentindo que deveria receber mais, mesmo sabendo que o que escolhi viver no momento tinha prazo de vencimento. validade curta. e era tudo daquele jeito, meio assim, sabe como? mas sabemos que é apenas do jeito que sempre se dispôs a ser.

sinto seu fôlego colado na minha boca. seus dedos contando pintas pelas minhas costas. vibro com os detalhes. fantasio momentos futuros – mesmo sabendo que eles nunca existirão. sinto pés macios que se esfregam nos meus. e de nada disso tenho o direito de guardar no meu coração, afinal, nada do que acontece ali pode ser transcendido. minha essência se veste de melancolia. por ter a vista de camarote para uma versão do amor que, mesmo tão perto, tem o poder de extrair toda a minha força, toda a minha crença, toda a minha benevolência. versão falha do amor. versão fantasiada, inventada, misturada. farsa do amor. daquele em que não há muito a oferecer. nem há o que construir. momentos que são apenas momentos. efêmeros. perdidos e desconectados de quem somos de verdade. há uma porção de beleza mas a sua superficialidade anula o seu melhor. e é o que mais me machuca, me corrói, me desgasta. o superficial é pouco pra mim, sempre foi. porque acreditei que agora seria diferente? justo agora, o momento mais frágil de uma (re)evolução?

já aprendi há muito tempo que não se pode viver os fragmentos de um amor inventado. você, vendedor de um amor inventado, se torna apenas um alguém. mais um alguém no mundo. o alguém que tranca as portas e me faz de cabo de força. que me faz desprezar o novo batendo à porta, assassinando a infinidade de possibilidades que acenam gentis para mim. que acha uma grande bobagem tudo isso. que não quer nem ouvir o que eu tenho a dizer. e ainda se diverte com a situação descabida em que entrei. os pedacinhos de carinho que, com muito receio, você me dá já não são mais empolgantes. suas atitudes veladas enfraquecem meus olhos, que agora só querem se fechar diante de você. suas minucias atrapalham o meu juízo. e é assim que eu digo que vou enfrentar mas titubeio: bônus que vem com o seu desamor tão prático. tão lustroso. tão perfeitinho. e você se acha tão cool por se manter insensível a tudo… se acha forte e invencível. exemplo de atitude. exemplo de homem. você realmente se acha um grande cara.

envolvimentos com prazo de validade acordados. para mim, seu fim é instantâneo como macarrão nissin. como tiro ao alvo. como a dona encapuzada que suga a vida em segundos. não nasci para viver vocês, amores transvestidos. porque vocês roubam os meus sentidos, os meus valores, o que há de melhor em mim. e sempre sem cerimônia.

seu prazo de validade chegou enfim. porque ficar com um amor transvestido é como escolher viver sentado no parapeito de uma janela – e passar pelo sufoco do frio da barriga só por querer muito vislumbrar a paisagem. ter aquela vista. mas será exatamente a única coisa que terei: a vista. uma vista que vem colada a uma queda iminente. é por isso que de nada vale tentar. lutar. testar. voltar. certas coisas são como são porque assim querem ser. histórias estragadas que repetem estragos e que podem até estragar o olhar mais puro. mais sincero. o mais honesto dos seres.

posso ter um coração partido agora ou mais tarde. posso mentir para mim mesma, dizer que estou curtindo o momento. que estou aproveitando o presente do acaso. que sou muito descolada. posso, sim, descrever milhares de pontos modernos e literários para continuar nessa. mas, chega, eu não posso querer mais. simplesmente porque o peso da vida sobre mim anda grande demais. porque as minhas escolhas andam amadoras demais. porque o que eu mais quero ter nessa vida nem é você. muito menos outro você. tampouco um outro que chegue por aí: quero voltar a sentir o vento gelado no rosto nos meus passeios ciclísticos como se fosse o último. quero voltar a sentir a paz que um sorriso verdadeiro traz. quero voltar a fechar os olhos e entender que, sim, está tudo bem. e vai ficar tudo bem de novo. só por eu cuidar do que deveria ter sido tratado como o mais importante desde o início, o meu sorriso, já está mesmo tudo bem.

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♪ para ouvir lendo ● have a nice day – stereophonics

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