lutar por si mesmo

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fechei os olhos enquanto a água escorria quente pelo meu rosto. dei de ombros para mim mesma. questionei um momento. escolhi uma lembrança realmente boa. dignamente feliz. busquei na gaveta uma memória realmente bonita. olho ao meu redor e só vejo coisas realmente belas. há muita beleza no mundo, eu sempre soube disso. mas às vezes perco o brilho. perco o melhor da festa. perco a etiqueta na gaveta, que se torna mais funda, maior. parece que tudo fica difícil quando há espaço demais.

e é mais uma vez em que me vejo de frente para um muro. daqueles sujos, com tijolos quebrados, pintura descascada, palavrões pichados. minha visão se prendeu no muro e lá está. lá permanece. minhas pernas entrelaçaram seu topo e de lá não mais saem. quero descer. subir não foi uma boa intenção. é agora que do muro quero sair. nele não posso mais ficar. já tentei tanta coisa diferente que a criatividade se perdeu. assim como eu.

meu recomeço quer se tornar começo. sem o “re”. acordo soletrando palavras positivas. declamando para o meu cérebro que, sim, vai ter jeito. tem jeito pra tudo nesse mundo, não é verdade? dizem que a vovó falava que só pra morte não há jeito. então, vai que eu ainda tenho jeito? vai que esse coração deixa de ter amnésia. vai que ele corrige a miopia com uma lente. vai que meu cérebro corta suas laterais e deixa de ter um formato de coração? vai que os meus punhos, sempre prontos para quebrar o dente de alguém, se abrem. vai que, né? tenho que continuar tentando. acreditando. passando por cima das risadinhas. dos balões de fala com um “otária” escrito. a gente tem que tentar. tem que acreditar que vale a pena. é o que resta. é o que aprendi a viver. é o que sei fazer dessa vida.

a verdade é que quando um coração se parte, muito medo se alastra pelos sentidos. e aí o negócio é lutar pela gente mesmo. a luta pelo resgate de si mesmo. lutar para não deixar tudo congelar de vez. para não se tornar o mesmo tipo de pessoa sintética que sempre parte um coração. que sempre desfaz o ninho de um passarinho. para eu voltar a ser como era – a menina das nuvens.

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