a indiferença do desapaixonado

irene miravete

quando a indiferença toma conta, pouco se constrói ao redor e muito se retem para baixo do tapete.

é resultado de um conjunto de vivências insatisfatórias. de memórias apagadas à força. de vontades suprimidas pela ingrata ação do tempo. de sonhos que se perdem no meio do caminho. de nuvens que se vão com o vento e não voltam mais. como construir quando só se sabe habitar um terreno arenoso?

e o tapete vai aumentando de tamanho. aumentando de jeito que, de tão alto, te impede de andar. de seguir em frente, de subir pé sobre pé. senão você tropeça. vai tropeçar no amontado que está escondido ali. a indiferença toma conta e você se sucumbe a um processo óbvio de penumbra. de quietude. de viciar no pensamento insonso do “adianta de quê”? é o estacionar-se. é a estagnação de uma vida que, de tanta vida, transformou-se apenas em sopro. um sopro sem respiro. sem respiro para a sobrevida.

é a vida sem alento por ter sido, durante todos os seus anos, a maior das expressivas vidas que cansou um dia de acreditar. é a força desacreditada que só quer vencer o cansaço de sua insônia.

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♪ para ouvir lendo ● simple pleasure – josh rouse

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