das prisões que nos definem

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estou presa à uma mesma marca de pasta de dente. no banheiro, na bolsa, na casa do meu irmão: a mesma marca nos meus dentes. estou presa a um par de sapatos para trabalhar. todo dia escolho o mesmo; o salto é alto mas muito macio para se levar um dia inteiro no calcanhar. fico mais alta e com a coluna saudável: não quero que ele acabe nunca, fiz a escolha perfeita sem saber se daria certo. e tem a prisão pelo escritor preferido. é aquele que anda fazendo a minha cabeça e me impedindo de ler as escritas de outros. 

falo das prisões que definem quem somos. o corte das camisas de manga comprida e o preto das minhas calças são confortavelmente reconhecidas pelo rapaz do cabelo bonito do 6º andar do prédio em que trabalho. meu pai compra rotineiramente minhas frutas sem perguntar quais seriam, afinal, ele já sabe. saio de casa com a base certa que ilumina o meu rosto sem drama. almoço no restaurante do peixe assado no ponto certo para o meu paladar.

procuramos conforto. seja o travesseiro do mickey para dormir abraçada todas as noites. seja o arroz com alho que espero alegremente para comer quando chegar em casa. seja o crachá que não pode ser esquecido pela manhã e, por isso, está sempre guardado no mesmo compartimento da bolsa do dia. hábitos que trazem uma sensação ansiosa de segurança, marcas que, de tão tradicionais, suprem o desejo de poder confiar cegamente em algo no dia a dia. são as prisões inofensivas que buscamos para, enfim, enxergamos algum sentido em meio a um turbilhão que são os nossos pensamentos, desejos, desafios. os tais sonhos mais profundos que todo coração é capaz de acorrentar-se só para bater mais forte. e é assim que nos sentimos vivos. é assim que eu me sinto parte de algo muito maior do que poderia explicar.

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♪ para ouvir lendo ● this disorder – the features

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