meus pequenos desastres

Irene Miravete

eu sei diagnosticar a cobrança. sempre me cobrei bastante. mais do que todo o resto do mundo poderia aceitar. e também sempre ouvi que me cobrava mesmo. era todo o mundo me pedindo pra relaxar, afinal, irritava quem mais me amava. talvez tenha sido justamente isso que fez a cobrança duplicar de tamanho!… mas o meu fator “x” é a busca pelo perfeito. desde miudinha era assim. o vestido xadrez da boneca ruiva sem manchas. o cabelo de nylon da barbie “tratado” a creme de frutas. o dever de casa sem rasuras. o trabalho do escritório redondinho, o tempero correto, o abraço na intensidade certa, o beijo úmido e não molhado, o hífen e a vírgula sempre perfeitas, o pão-de-queijo assado na temperatura que o deixa mais crocante, o pedacinho de espelho descascado que tem que ser reparado. passei tanto tempo esperando e fazendo o perfeito que deixei de aproveitar os meus pequenos desastres. daqueles que fazem a gente ficar com as bochechas vermelhas. gritar no travesseiro. sair correndo de tanto sem-graça. pedir desculpas sem ter a culpa real. correr os olhos pelo espaço que mais parece estar de pernas pro ar.

hoje, tento aceitar o meu imperfeito. faço isso brincando com o meu lado desastradinho. é me esforçar para rir dos passos tortos que me fazem esbarrar em você. do café quente que eu esbarrei na sua cama porque fui te dar um beijo. das aspas que eu incluí naquele trecho porque elas são charmosas. da camiseta preta com estampa duvidosa, mas preferida, que eu achei escondida no armário. nossa, e o meu amor por você é cheio de pequenos desastres. às vezes eu fico tão feliz por estar ali que troco significados de palavras, falo tudo trocado. é o espinafre embalado a ar que eu chamo de vácuo. é o game que eu jogava na lan house mas falo que jogava no shopping. é uma “trocação” que revela minha timidez x minha vontade de impressionar. pode ser até bonitinho, se eu parar de brigar comigo mesma depois de revelar meu lado desastrado. diagnostiquei essa mania de me cobrar e estou rezando pra perder toda essa rigidez. que é pra parar de deixar o meu coração apertadinho sem precisar. pra parar de enxergar a vida como uma ata de assembleia. ainda vou derrubar algumas coisas pelo caminho. muitas coisas. e não vejo a hora de poder rir de todas elas ali, caidinhas no chão e manchando o assoalho de cores novas e improvisadas.

.………………………………………………………..
♪ para ouvir lendo ● gone for good  – the shins

foto: irene miravete
Anúncios