quando eu disse ‘não’

certa vez reencontrei um conhecido que se dizia meu amigo. ele passou a fazer parte da minha vida. havia troca de segredos, histórias, lamentos, textos, sonhos e filmes. com ele vivi um conceito diferente de relacionamento interpessoal. era simples. divertido. despretensioso. a partir do momento em que adotamos o sexo casual tudo ficou estranho pra mim – enquanto pra ele era “fichinha”. tudo muito natural. naquela época eu entrei em conflito por duelar contra muito do que acreditava e, depois de alguns meses convivendo com a situação, decidi seguir em frente. optei por não querer mais esse tipo de sexo. aquela foi uma época em que sentia o tempo todo que havia me perdido. e foi, justamente com aquele fim, que passei a sentir que havia conseguido resgatar a pessoa que gosto de ser. se tem uma coisa boa nesse mundo é a gente poder escolher o que quer. e quem quer ser.

há alguns dias recebi mensagens dele. com a notícia do fim do meu namoro, rapidamente me chamou para sair. gostei da ideia de encontrar alguém para conversar longas horas. alguém para dividir um drink colorido. mas o tom do convite mudou quando percebi que o sexo era o objetivo desse encontro. eu já sabia que a minha resposta seria “não”. minha negativa foi muito gentil e respeitosa. a reação dele foi nova. ele me chamou de traumatizada e revoltada. ao mesmo tempo em que me chamava de amiga o tempo todo. foi instantâneo pensar “é meu amigo?”. ora, que amigo não te pergunta como você está em mais de um ano? que amigo não se lembra de te dizer uma palavra de conforto quando descobre que você acabou de terminar com o namorado? que amigo define a sua negativa ao convite com palavras tão duras? existe este tipo de amigo, que sequer se importaria em saber – repito – como você está caso esteja mesmo traumatizada e revoltada como ele pensa ao invés de digitar “rs”?

eu não respondi a nada do que ele disse. me recolhi. preferi não retrucar, afinal, ele realmente não me conhece de verdade. mas hoje, em forma de texto, respondo que, não, meu “amigo”, eu realmente não estou traumatizada com o fim do namoro. perdas são difíceis mas não fui ferida pelo meu ex, estou bem. e, não, eu não sou uma pessoa revoltada por não querer transar com você. a verdade, “amigo”, é que, enquanto estive com você, nunca me senti bem. plena. feliz. completa. só descobri que esse tipo de relação não combina comigo. quero me sentir bem com as minhas próprias escolhas e por isso digo não. é por mim, não por você. e, sabe, o mais importante e secreto de tudo é poder gritar pro mundo que na época em que convivi com você sentia a maior angústia do planeta. isso porque suas atitudes me faziam questionar quando a pessoa certa iria chegar. se existem caras legais no mundo. se havia algum problema comigo em não me soltar. se eu era desengonçada já que você ria da minha calça de cintura alta com camisa jeans claro. se eu era o elo fraco nos momentos em que você fazia questão de comentar sobre o corpo de outras mulheres. a verdade, “amigo”, é que estar ao seu lado é como estar muito longe de algo que eu sempre quis, que é encontrar um grande amor. dizer “não” a você é estar no caminho certo para caminhar livre até o que eu quero ter pra mim. agradeço o convite, obrigada por ter se lembrado de mim. mas espero do fundo do meu coração que você fique bem onde está: longe. e, por favor, considere tratar melhor as pessoas que cruzam a sua vida. ninguém está à sua disposição sempre que você quer e nem deve ser culpado por querer coisas opostas às suas. o lado bom é que a gente só sabe reconhecer o doce quando conhece o amargo. pra mim, a vida é assim: o que se escolhe agora.

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♪ para ouvir lendo ● dakota – stereophonics

foto: roberta tocco
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