das habilidades que perdemos

Laura Leal

o tempo passa e você já não é mais como antes. sente que viveu muito. tudo o que tinha pra viver. perde a capacidade de acreditar em coisas maiores. em um antídoto para o medíocre. em grandes ousadias basicamente. tudo complica de uma maneira tão caótica que nem dá pra explicar direito como se chega até aqui. só sabe do que sente. e sente, mais do que nunca, que um grande choque de realidade seria escolher ficar por perto. afastar já é verbo recorrente. estéreis estados latentes de segurança. tudo aquilo que dispute espaço com seus mil projetos. com seus 3 gatos. com a saudade que sente do seu amigo que foi embora pra gringa e nunca mais voltou. tudo o que te faça pensar. que te faça lembrar. aquele sorriso imprudente sem motivo. você não é mais como antes e agora assassina a imaginação. despista qualquer sentimento juvenil. corta pela raiz o que for que se mostre simpático. sim, como aquela mínima faísca que faz a gente querer correr contra o vento. como tudo o que venha trasvestido de amor. hoje você já não abre mão de um suposto equilíbrio conquistado com muita cafeína e cigarros pela madrugada. você sente que nada nem ninguém possa entrar nesse seu mundo. como se não fosse possível ser enxergado na multidão. você anda pelas ruas querendo ser invisível e se refugia no sintético. no efêmero. nas músicas antigas espalhadas por aquele seu hd empoeirado. num emendar de pensamentos que mais são um vazio profundo que só você percebe.

você pode falar que é medo. ou desilusão. tristeza aguda poderia ser um diagnóstico. idade, uma opção. sinto em dizer que você sente muito por ter chegado até aqui, tão sozinho. cada vez mais frágil. cada vez mais tímido. cada vez mais fechado em convicções secretas. uma vida de pensamentos fragmentados. de sentimentos desconectados. tudo isso dentro de um coração remendado. de fato não você não gosta de ninguém. não vislumbra um romance e tampouco quer procurar por um. para alguns isso é o fim da linha. para outros, libertação. só sabemos do que sentimos. sei que você se enraivece com a batida esperançosa do seu peito que, por vício, ainda emite ondas de frequências “borboletísticas” pelo corpo. você só quer voltar pra casa. sempre quer voltar. faz tempo que quis ficar longe. hoje você vai voltar bem distante que eu sei. e sei que é pra pensar no quanto a vida esconde verdades. segredos. sinais. hoje você vai voltar pra casa. e rápido. que é pra pensar um pouco mais no quanto só deseja adormecer sem lembrar que um amor ainda possa existir de fato. e que está por aí. por lá. em lugar algum. em todos os lugares. em nenhum. que ele está em alguma festa bem bonita pensando se você existe. enquanto você está  justamente aqui, fazendo de tudo para não conhecê-lo.

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♪ para ouvir lendo ● melody calling – the vaccines

foto: laura leal
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