“get a life”

Sara Cuadrado--3

sabe aquele dia em que você já acorda pensando? pois é, essa sou eu hoje. acordei pensando no que não devia. é como se as lembranças estivessem ali, emparelhadinhas em fila, astutas, só esperando o meu abrir de olhos para, finalmente, fervilhar a minha mente ainda lenta pelo sono conturbado. sim, tive um pesadelo. daqueles chatos, muito chatos. trabalhosos, sabe como? daqueles que você passa a noite inteira gastando muita energia. cansa só de lembrar. há algum tempo isso vem acontecendo comigo. e, olha, juro aos céus que faço de tudo para viver um cotidiano produtivo. eu passo mais de 9 horas diárias sentada no escritório criando, inventando, trabalhando muito mesmo. eu, sim, dou um duro danado. leio livros com histórias descritivas, daquelas que fazem a gente imaginar até o formato dos pés da protagonista. converso com meus grandes amigos sobre tudo: o universo, a fotossíntese, os filmes que amamos, as músicas que compramos, o menino bonito que eu vejo de vez em quando no centro, o restaurante que conheci anteontem. ando de bike ouvindo músicas que inspiram, daquelas que fazem a gente sorrir até torto de tão contagiantes. divido experiências com meus pais na mesa da sala da jantar e, acredite, a gente discute sobre tanta coisa que a palavra tédio não habita mesmo aquela casa. pois é. eu tenho uma vida, afinal. sempre busquei por uma vida real. crio colagens. crio bichos e monstrinhos de pelúcia. cuido da minha pele duas vezes ao dia. tenho um bonsai pra cuidar, gente. faço meu café da manhã – usando fogão, ok? faço compras. escrevo diários à mão. arrumo a minha cama todos os dias. veja: eu tenho, sim, uma vida. sempre tive. mas porque raios eu ainda acordo pensando no que não devia? em teoria, era para todos os fantasmas já terem zarpado, tamanho é o trabalho que eu tenho cuidando da minha mente. lutando pra ter uma vida pacata. ah, e já era tempo de abraçar essa minha vida efusiva sem olhar pra frente nem pra trás. porque eu só quero é olhar pra ela, mesmo. ainda vai levar um tempo para superar certas cicatrizes com casquinhas que insistem em não cair nunca. ainda vai levar um tempo para encarar que talvez eu ainda não tenho aceitado muito bem que a vida pode, sim, ser realmente boa. e isso mesmo não tendo realizado sonhos difíceis. daqueles tipo esperança irrealizável. ainda vou ter que ter paciência comigo. muita paciência. eu ainda vou voltar a escrever um post falando sobre o quanto é difícil ir pra frente. o quanto é dolorido aceitar o mundo do jeito que ele é. o quanto eu sou fraca por ainda não perceber que tudo está nas minhas mãos – basta descer das nuvens. e no asfalto ficar e se entregar. pode ser simples. só não sei ainda direito o que fazer, em meio a “tanto cotidiano”.

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♪ para ouvir lendo ● simple song – the shins

foto: sara cuadrado
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