saudade de mim

Sara Cuadrado--7

já desisti diversas vezes do amor. tantas que não poderia contar nos dedos. há dois anos cultivo a solidão dentro do meu coração. os caras que encontrei pela frente tinham destino selado. eu parecia saber o que cada um representaria na minha vida. e até quanto tempo ficariam por perto. tem dias em que abro meus olhos e forço a memória. para lembrar da mari de 5, 8, 12 anos atrás. sinto falta do entusiasmo – uma festa de rockabilly era aguardada com muita ansiedade. do otimismo – nada parecia me desanimar, sempre havia algo de bonito pra contar. até da ingenuidade – o amor transbordava até do asfalto mais judiado em que pisava. mas do que eu sinto mais falta mesmo é da esperança. eu sabia direitinho como acreditar no quanto as coisas podiam dar muito certo e serem legais, não importava o que acontecia. talvez o tempo tenha deixado minha alma um tanto adormecida, em sonhos que já não vivencio mais. sinto que me tornei duas e de nada adianta querer mudar. já ouvi tanta gente bacana dando exemplos reais de que eu podia, sim, voltar a enxergar com olhos mais generosos por aí. voltar a acreditar em viver momentos doces mesmo seguindo sozinha por milhares de ruas. por lugares próximos ou distantes. por tantas pessoas interessantes que vemos por aí. voltar a ser aquele tipo de pessoa que sonha com gosto, mesmo que não tenha sinais de que algo de bom está pra chegar. afinal, pra sonhar não é preciso ter garantia. e, sabe, eu tinha esse brilho dentro de mim. mas achava que era bobagem, que era só um jeito tímido de ser, que era diferente do que parecia ser o certo. e eu deixei esse pensamento tomar conta de tudo e hoje sinto falta. hoje sou uma obsessiva pelo racional. pelo prático. pelo descartável. pela fuga até o que é fácil. direto. corriqueiro. hoje sinto a angústia que é ter quebrado tudo de mais sonhador que levava dentro de mim. por isso, meu amigo, hoje eu quis te contar sobre a sorte que é enxergar mundos bonitos. enxergar bondade nos outros. enxergar o lado secreto de tudo. se você é assim siga em frente! coroe seus cabelos com flores. escreva bilhetes com caneta colorida. abra sorrisos em quem passar por você. diga aos seus amigos que juntos vocês podem mudar o mundo. desfile suas pernas, finas ou grossas, curtas ou longas, por novos caminhos. no dia mais mal-humorado, ria de si mesmo. permita sentir raiva mas trate de jogá-la fora no primeiro lixo com que cruzar.

sinto saudade do “tum-tum” que fazia meu coração. sinto falta da poesia que era acionada no meu cérebro quando via o mundo lá fora da minha janela. sinto o vazio que é perder a confiança genuína que eu depositava nas pessoas.sinto apreço pelo que mundo que eu enxergava. sinto muito por ter perdido o amor que sentia pela vida. sinto mais ainda por as coisas terem chegado ao ponto que chegaram. sinto encarar que de tudo o que tenho o que mais leva minha atenção e energia é trabalho. poucas coisas me restaram de lá pra cá. agora sou uma pessoa mais séria. cética. nada especial. sou aquela pessoa que se tornou comum ao se esquecer do que mais a fazia diferente. as estrelas do meu céu hoje já não brilham tanto mais e nem é porque pessoas partiram meu coração: quem o partiu de vez foi eu mesma. e por uma escolha estranhamente racional. e que em nada combina com minha natureza. se voltar no tempo pudesse, daria um abraço bem forte em mim mesma e diria que a vida, sim, acontece. e que sonhar vale mais do que a gente imagina. que a vida, sim, pode ser mágica. inesperada. cheinha de sorte. hoje eu sei que isso é real mas de nada vale se não acredito. ter conhecimento está tão distante de acreditar… eu sabia acreditar. era bonitinho lembrar até onde eu podia ir somente por conta deste verbo. e o mais solitário de te contar isso é saber como tudo aconteceu. pois eu tinha era que ter apostado mais no que acreditava. tinha que ter sido mais forte. tinha que ter continuado firme, um tantinho que fosse. tinha que ter feito tantas pequenas coisas por meu coração. achei que fugir para o outro lado me deixaria imune ao medo. ao risco. viver como vivo hoje me deixou presa à convicções simples e nada admiráveis. são somente regras fúteis para pessoas que acham que estão protegidas.

a verdade é mesmo assim, nos choca quando verbalizamos o que nunca acreditamos que chegaria a acontecer um dia. a verdade é sorrateira, chega silenciosa e coloca à prova tudo o que você achava que era. a verdade é minha, me alerta de que a vida é imensamente frágil e se perde facilmente se assim deixarmos que seja. a verdade é mesmo essa: sinto saudade de mim.

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♪ para ouvir lendo ● the suburbs – arcade fire

foto: sara cuadrado
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