reconheci o amor ali

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aprender o que é amor de fato é difícil. leva tempo. é preciso viver um monte de tipos de “amor” antes de ter a confiança de reconhecer o amor ali. já escrevi sobre tipos de amor que vivi, vi de perto e até daqueles com que sonhei. de todos os cálculos, esboços e registros percebi que o amor de verdade é fácil de ser reconhecido. por sua raridade. por ser tão simples e tranquilizador. por ser somente o que quer ser. e ele está mesmo ali pro que der e vier. pode acontecer em cinco minutos. pode acontecer em cinco meses. pode demorar a crescer. pode já surgir crescido. mas nem por isso deixa de ser amor. eu sempre imaginei como seria o mundo repleto dele. eu sempre imaginei como seria a definição de um amor dos bons. acho que amar pra valer é não ligar se ele abaixar o volume do meu som sem avisar. é não pedir pra ficar nem voltar. não se importar se ele não ler o meu blog. não emburrar se ele for pro mineirão. não mais pensar no verão de 1900 e quebrados. acho que nem pensar antes de fazer alguma coisa boa. porque você simplesmente vai lá e faz. porque o amor é assim, vicia a gente em querer fazer o outro sorrir o tempo todo. eu vivo dizendo que não sei se já senti amor. sempre acho que não porque o imagino de uma forma bem bonita, feliz e generosa. e que seja capaz de mudar tudo o que fui e guiar tudo o que de melhor eu possa ser. idealizo o amor por vocação, não teimosia. vejo assim: nasci zero praticidade. vivo nas nuvens há mais tempo do que piso no chão. sempre senti muito tudo e tudo muito. por mais que ouvisse o quanto esse caminho possa ser solitário. perda de tempo. ingenuidade. ou até revelado como ilusão. hoje já não dou muita vazão ao amor. pedi licença temporária para racionalizar um pouco meu coração. mas a natureza nunca me foge e vez ou outra eu me pego pensando no amor. no quanto eu mudei o rumo, o embolei que nem papel descartado, rezei pra esquecê-lo. mas sempre me voltam as palavras. para dizer o quanto eu acho o amor bonito. e que deve, sim, ser bom demais ter o amor sem aspas. que é o amor sem mentiras, sem promessas, sem a maldade do mundo. aprendi com a literatura que ser sensível tem lá sua nobreza. mas aprendi com a vida que ser assim tem lá seus machucados, tipo aqueles em que a gente bate o dedão do pé na cômoda do quarto. o que me resta é acreditar que é o amor quem cuida das dores. que dá as mãos quando a gente tem que seguir em frente mesmo sem esperança. que canta a música preferida junto a mim. que apaga a luz do quarto e acende as estrelas. acho que o amor pode me proteger das mentiras que contam pra mim todas as manhãs. me lembrar de que há sim muita gente boa no mundo. dizer bem baixinho que a dor de cabeça vai passar, é só ter paciência.

é, eu quero acreditar no amor. porque o que seria o amor senão o que me salvaria de mim mesma? a vida é de um só jeito: aquele que a gente escolhe como ver.

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♪ para ouvir lendo ● I ran – a flock of seagulls

foto: getty
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