acredite no tempo

como se conta o tempo que alguém fica na vida da gente? pra mim, que respiro uma semente de amor por dia, dizer o número real de meses que estive com você reduziria muito toda a carga sentimental que levo na mochila todos os dias. pensar sobre isso me faz corar um pouco. sentir uma pontinha de vergonha. a vergonha em contabilizar o tempo vem do medo do que o mundo exterior ao seu coração pensa sobre você. o mundo exterior é tudo aquilo que faz parte da sua vida mas nem faz ideia de como funciona o seu coração de verdade. é aquele menino que vive me paquerando porque é galinha e não entende como eu tenho essa capacidade, assim, de amar desse jeito desengonçado. é o lado do meu cérebro que grita por clemência: “mariana, sério, menos, querida, porque dessa vez, sim, estou quase te internando, sua maluca”. é o meu pai, a minha mãe e o meu irmão, que me protegem até mesmo da minha sombra e, por motivos óbvios, colariam meu coração se pudessem. são os meus amigos que, no mínimo, achariam o maior absurdo do planeta eu afirmar que alguns meses, sim, se tornaram um capítulo da minha vida.

porque amigo tem disso, né? eles defendem a nossa honra com unhas e dentes. se decepcionam junto e ainda dormem ao nosso lado, silenciosos. dizem o quanto somos mais bonitos, mais inteligentes e o quanto merecemos somente pessoas incríveis. observam que estamos emagrecendo e que o nosso sorriso nunca esteve tão bonito. na maioria das vezes, são eles quem acreditam mais em mim do que eu mesma, e, claro, não aceitam quando digo o peso que é ter essa sementinha de amor cultivada por mim. afinal, eu sou muito mais legal, não é verdade? então porque sentir tanto se o tempo é curto?

o que pega é que a vida é cheia de lados. vários que confundem e até machucam. é vazia de explicações e completamente inusitada. a vida faz a gente de gato e sapato, não se importa em nos ver chorando e, pfff, sequer nos dá satisfação quando planta um buraco no meio do nosso caminho. é assim mesmo. mas se tem uma coisa da vida que compensa é a amizade. ah, a amizade… sempre querendo completar espacinhos vazios dentro de nós. sempre te dizendo que, olha, vale a pena seu esforço todo, sim. qualquer decepção é meramente ilustrativa e muito menor do que tudo de precioso que você tem. e é isso o que mais me encanta nos meus amigos, nos meus pais e no meu bichinho de pelúcia: eles fazem a vida ficar bonita mesmo sendo tudo um saco. eu sei que eles fariam de tudo para curar meu coração partido. e se hoje eu acordei feliz foi porque uma amiga que, apesar de morar a mais passos que poderíamos contar longe de mim, me fez lembrar de quem eu sou. aquela mariana de verdade. tem coisas que a gente se esquece, né? principalmente sobre nós mesmos. essa mania que a gente tem de supervalorizar coisas que, na verdade, não deveriam nem ser lembradas. se hoje eu acordei feliz foi porque um amigo que, apesar de novo por aqui, me deu o abraço mais longo que há tempos eu não recebia; porque outra amiga me pergunta como eu estou todos os dias e, o outro, passa o tempo todo em que estamos juntos sorrindo pra mim.

pelos amigos e pelo amor que devemos seguir adiante. é por isso que a gente acredita no tempo. o tempo em que vivemos e aprendemos. o tempo que passa e nos torna mais fortes. o tempo que demora e nos torna mais espertos. o tempo que corre e nos faz sentir jovens. o tempo em que nos sentimos idiotas que nos faz querer reinventar a vida. eu acredito no tempo e tenho pra ele uma contagem diferente. dias podem ser beijos, meses abraços, anos podem ser sonhos. para mim, os meus cinco anos de namoro foram menos intensos do que relacionamentos miseramente menores, por exemplo. eu acredito num tempo em que arriscamos sem vergonha alguma. em que fazemos acontecer porque acreditamos. em que somos nós mesmos. em que somos realmente felizes. e que todo o resto calcule o seu tempo como quiser.

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♪ para ouvir lendo ● regret – new order

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