saindo da geladeira

olhar para dentro de si mesmo deveria ser um hábito aprendido desde a primeira infância. sabe quando a gente aprende que tem que lavar sempre as mãos antes de comer? pois é. treinar o olhar reflexivo deveria ser algo condicionado. só que ninguém conta isso nem explica direito pra gente por que é importante. daí os anos passam, a gente cresce e não se conhece. não se reconhece diante de um furacão de decisões que devem ser tomadas rapidamente. está aberta a temporada da confusão. a bagunça interior é um perigo e sai atropelando tudo pela frente. amizades, paqueras, vagas de emprego, pessoas bacanas que conhecemos, parentes desavisados. oportunidades legais que passam por debaixo do nosso nariz e a gente simplesmente não consegue. se acovarda. se sente indisposto. olha para um lado, olha para o outro e apenas fica ali, estático.

o negócio é que olhar para dentro dói. é foda encarar as verdades sobre você mesmo e descobrir que mal se conhece, na real. a gente vive se autoafirmando, né? “eu sou tranquilo, durmo bem e não como açúcar durante a semana”. “eu sou honesto, leio dois livros por mês e não aumento a taxa do colesterol”. e tem quem seja “bom demais para ser rejeitado, mega inteligente e está pronto pra casar”. mas e a essência, como é que é? até que ponto você enumera seus valores, até onde você vai para realizar metas, pelo quê você acorda de manhã e faz tudo o que tem que fazer?

a gente não costuma responder estes e tantos outros montinhos de perguntas. a gente se fecha demais no que achamos do mundo. no que achamos que fizeram contra nós. no que ressentimos quando não temos o que desejamos. no que concluímos depois daquele fora. no sonoro “não” gritado pelo headhunter. na falta de sucrilhos para encher nossa tigelinha de leite. a vida exala milhares de cores, todos os dias, para te mostrar que, puxa, o entorno pouco vale, no final das contas. as engrenagens do mundo são movidas pelo que sai de dentro das pessoas e, acredite, se cada uma olhasse para dentro de si antes de sair de casa, tudo seria bem diferente. menos complicado. menos mascarado. menos ilusório. todos teríamos autoconfiança e selaríamos um pacto de sangue com a sinceridade. falar abertamente sobre a decepção que foi aquele relatório que você apresentou seria fichinha. da próxima vez, basta falar mais devagar. e sobre o quanto está chato namorar com fulano, então? libertador para ambos. eu sempre achei maravilhoso um mundo sem ‘mão na cabeça’. feito por pessoas que falam “olha, não estou a fim mesmo de você”. por aquelas outras que assumam que queriam mesmo era viver um filme bem bonito e por isso, “olha, não vai rolar mais ficar de rolo com você por aí”.

acredito em um mundo que seja pautado por pessoas que simplesmente libertam as outras sem desculpas. sem medo de mágoas. mentiras sociais nunca foram confiáveis de que resguardam corações ou façam bem à saúde. mentir para te deixar com a ficha limpa, com carinha de fofo para a sociedade é a maior negação de si mesmo que você pode cometer. somos todos, homens e mulheres, iguais na imperfeição, nos pequenos erros, na determinação em acertar. qual o problema de quem cria um milhão de justificativas para reportar uma perda? eu sempre acho que é uma limitação que a pessoa tem. porque dizer a verdade é a maior boa ação que você pode fazer a alguém – e a você mesmo. acredite quando digo isso.

viva a sua verdade e saia da geladeira. o mundo real às vezes dói mas é a escolha mais feliz que você pode fazer por você. olhe para você e aceite o que aconteceu. é a partir daí que a gente consegue amar mais e guardar somente o lado bom das pessoas que conhecemos pela vida. não precisamos levar dentro do coração tudo o que um dia nos magoou. é pesado demais para um músculo tão pequeno. não precisamos responsabilizar o tempo todo as pessoas que nos levam aos fatos que nos machucam. a vida não é feita para punições nem lágrimas eternas. acredite em um mundo mais verdadeiro, livre das ilusões com jeito de conto de fadas. acredite que você pode torná-lo assim, encare seus dias com olhar generoso. olhe para si agora e responda rápido: para quê você acorda, todos os dias? tenho certeza de que não é para regar sementes mortas.

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♪ para ouvir lendo ● snap out of It – arctic monkeys

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